Imagem: “Balneário Sul”, Mano Penalva. Foto: Nelson Azevedo
Sobre Mano Penalva
Mano Penalva (Salvador, 1987) vive e trabalha em São Paulo. É formado em Comunicação Social pela PUC-RJ, onde também cursou Ciências Sociais com ênfase em Antropologia. Frequentou por 6 anos cursos livres de arte do Parque Lage e por 4 anos o Acompanhamento de Projetos no Jardim do Hermes, com Nino Cais, Carla Chaim e Marcelo Amorim.
O trabalho de Mano Penalva parte do estudo da cultura material, das mudanças de comportamento e dos efeitos da globalização. Sua produção é deliberadamente não-representativa, permitindo que os materiais ditem a forma e se unam por conta própria a partir de um desejo de existirem no mundo. Seu processo de trabalho envolve o interesse pela antropologia e pela formação cultural, que se materializa nessa urgência em se apropriar de artigos comuns encontrados e adquiridos na rua, em mercados populares e em viagens.
Entre as exposições individuais de Mano Penalva estão: Hasta Tepito, B[X] Gallery, curadoria Julie Dumont, (Brooklyn, NY, 2018); Requebra, Frederic de Goldschmidt Collection, curadoria Julie Dumont (Bruxelas, Bélgica, 2018); TRUK(ə), Soma Galeria, curadoria Josué Mattos (Curitiba, PR, 2018); Proyecto para Monumento, Passaporte Cultural, curadoria Yunuen Sariego (Cidade do México, MX, 2017); Andejos, Museu de Arte de Ribeirão Preto, com texto crítico de Olivia Ardui (Ribeirão Preto, SP, 2017); Estado Sul, Pop Center, curadoria Franck Marlot (Porto Alegre, RS, 2017); Balneário, Central Galeria, com texto crítico de Bernardo Mosqueira (São Paulo, SP, 2016); Deslocamento, Qual Casa, com texto crítico de Tarciso Almeida (São Paulo, SP, 2015), como parte do projeto Mesmo Lugar do Jardim do Hermes.
Residência Artística Pop Center 2017:
Exposição Estado Sul
Mano Penalva trouxe à exposição Estado Sul um conjunto de trabalhos construídos a partir de um olhar sobre as coisas do mundo. Além de uma situação física, Estado Sul trouxe a condição de uma maneira de ser. Um convite a pensar o Sul a partir do Sul. Materiais e objetos foram arranjados, estruturados ou encostados a partir de um deslocamento considerado como um estado normal – plásticos, objetos ordinários e gestos são reorganizados como fragmentos de uma composição precisa.
Os trabalhos foram compostos por coisas que pareciam já terem sido vistas em algum outro lugar – fosse uma sacola, fosse uma marca gestual. No trabalho de Mano Penalva, percebe-se comumente uma espécie de “quebra da normalidade” dos objetos – capacidade de reconfiguração surpreendente e inesperada, quando os mesmos deixam suas funções primeiras e imprimem novas possibilidades e formas de pensar a existência. Tudo é um jogo justo, indicando um interesse na forma cotidiana de improvisação urbana – uso decorativo e prático do material, o que reflete as realidades socioeconômicas e culturais da população.
Estado Sul foi espacialmente dividida em dois ambientes e uma ação em que o artista inseriu mil sacolas em circulação na cidade. A partir da observação da imagem do Laçador presente em souvenirs do comércio de Porto Alegre, durante a residência no Pop Center, o artista desenvolveu o trabalho Lembrança Popular. Duas sacolas de ráfia com serigrafias em preto traziam a imagem de dois vendedores do Centro da capital, lembrado a importância da figura popular como valor simbólico e “patrimônio cultural’’. A escolha dos personagens se deu a partir da observação de uma espécie de performance do cotidiano urbano do povo que ocupa as ruas e circulam com a venda de seus produtos. Além de uma homenagem aos pioneiros de uma conquista e do estabelecimento do estado do Rio Grande do Sul – representada pela figura do Laçador – o artista ampliou e problematizou a representação do que é ser popular. Assim, esse trabalho, que também tem como função o transporte, passa a ser um elo entre a sociedade e essa imagem, desmistificando o seu entendimento social.
No primeiro ambiente, a instalação Balneário Sul ocupou uma área de 24 metros quadrados, onde 40 mil escovas empilhadas formam uma base piramidal, construída em conjunto com lojistas, estudantes e passantes do Centro Popular. Esta estrutura foi formada por sonhos escritos em papeis que foram colocados dentro das escovas durante a construção do trabalho. No seu topo, cerca de 600 cartões e panfletos dos lojistas do Pop Center compouseram um campo plural.
No segundo ambiente, foi apresentado um conjunto de trabalhos criados a partir de produtos e materiais que eram provenientes de diversos lugares do Brasil e do exterior, ressaltando aspectos da cultura nacional, especialmente devido à apropriação de alguns itens que nos são familiares, mas com significados ampliados, extrapolando fronteiras através das combinações propostas pelo artista com um senso de invenção formal altamente matizado.
O trabalho de Mano nos faz pensar sobre a trajetória do objeto desde sua criação aos múltiplos usos. Os materiais desdobrados em novas funções sugerem uma questão reflexiva sobre o que a arte pode problematizar. Nesse caso, Estado Sul propôs, em um momento e em um ambiente ideal, uma ampliação do significados do que é ser popular.
Franck James Marlot, curador. Abril de 2017






















