Imagem: instalação de Mano Penalva em 2017. Foto: Nelson Azevedo
O projeto de Residência Artística anualmente convida ao Pop Center um artista para desenvolver um projeto nesse fervilhante espaço popular que abriga mais de 800 lojistas em 20.000 metros quadrados no coração de Porto Alegre. O objetivo da iniciativa é tomar a experiência de convívio no Pop Center como ponto de partida para a produção artística apresentada ao final de cada residência. A curadoria do projeto é do francês Franck Marlot, que, ao conhecer o trabalho de empreendedorismo social desenvolvido com os antigos camelôs da Praça XV, entusiasmou-se pela iniciativa e propôs à diretora institucional do Pop Center, Elaine Deboni, que as atividades realizadas no espaço não ficassem restritas ao universo comercial, mas que se expandissem para o campo da arte. Saiba mais sobre o início e o desenvolvimento do projeto na entrevista abaixo, concedida por Franck Marlot durante a realização da segunda edição da Residência.

Entrevista com Franck Marlot, curador do projeto Residência Artística Pop Center
Por Isabel Waquil
Como surgiu a ideia de fazer a curadoria deste projeto?
Eu conheci Elaine Deboni [Diretora institucional do Pop Center] em Paris através de um amigo em comum. Ela me contou sobre sua história e sobre a criação do Pop Center com tanto entusiasmo e energia e de uma forma tão comunicativa que fiquei muito tocado. A ambição do projeto social e a vitalidade com a qual Elaine o tem supervisionado durante todos esses anos me encorajou a propor espontaneamente que o projeto do Pop Center se abrisse não apenas para o campo do comércio, mas também para o da arte. Essa ideia é uma extensão da experiência com comércio de luxo que Elaine teve anteriormente. Eu pensei que seria gratificante oferecer um novo projeto para os lojistas, para a equipe do Pop Center e, também, para a cidade de Porto Alegre. O formato de residência artística pareceu o mais adequado para um encontro entre o artista convidado e os lojistas, como um fermento para o desenvolvimento de um projeto de exposição nas instalações do Pop Center.
Como é o processo de escolha dos artistas para o projeto? O que você leva em consideração?
Na primeira edição, propus o artista Mano Penalva, da Bahia, que mora e trabalha em São Paulo. Esse batismo de fogo se tornou um verdadeiro sucesso – e o feedback do artista, alguns meses, depois confirmou isso. Eu pensei sobre quais trabalhos de artistas poderiam prosperar com a aventura no Pop Center e quais artistas poderiam conhecer os lojistas e criar uma instalação no próprio espaço. Quais trabalhos fariam com que lojistas e artista trabalhassem juntos. Eu pensei que Mano Penalva e, neste ano, Renato Bezerra de Mello, tinham as ambições para um projeto como este em seu trabalho. O procedimento não será sistemático e estamos abertos a reconsiderar questões se um artista sugerir uma visão diferente. Mas nunca pensei que um artista propusesse um trabalho já existente, feito para outras ocasiões, sem pensar no espírito desse local e em toda a energia positiva que esse lugar emana. No entanto, estamos tendo o hábito de agregar à instalação no local algumas obras de ateliê dos artistas que escolhemos para apresentar o projeto como um todo.
Quais são os maiores desafios da curadoria em um projeto como este?
No ano passado, fizemos um planejamento que partia de uma apresentação final como sendo a vernissage, como em qualquer projeto. Percebi que a equipe do Pop Center tinha uma ótima experiência com eventos e que tudo ficaria bem. O verdadeiro desafio foi comunicar uma informação precisa para que códigos da arte contemporânea fossem passados para a equipe do Pop e ficassem legíveis no release de imprensa, na apresentação da exposição e assim por diante. Pode parecer ridículo querer mover códigos específicos e mesmo os menos perceptíveis “para as paredes brancas da galeria ou de um museu”, mas essa formatação – tranquilizante para o artista e para o curador – pode ser uma maneira de deixar mais espaço ao assunto principal: a relação entre o artista e a experiência no Pop Center.
Qual você acha que é importância do projeto para a comunidade do Pop Center?
Nós construímos este projeto com Elaine ao multiplicarmos nossas trocas. Vim pela primeira vez ao Pop Center para conhecer as premissas e entender melhor como poderíamos integrar a arte aqui. Esse diálogo é constante em todas as decisões e, devo dizer que Elaine está empenhada em preservar a liberdade do artista. Há, necessariamente, uma lacuna entre as minhas expectativas e o impacto real que tal projeto pode ter na vida dos lojistas, da equipe do Pop Center e dos visitantes. Com isso quero dizer que ainda espero, como muitos outros no pequeno mundo da arte, que a arte e o nosso trabalho em torno de artistas tenham o poder de abrir mentes e, talvez, fazer com que as pessoas se perguntem questões existenciais, concentrando-se nessa prática de visitar museus. É certamente um projeto pretensioso e utópico, mas que é de um poder inspirador. Seria muito triste viver e trabalhar em um mundo sem perseguir utopias positivas. Neste ano o artista Renato Bezerra de Mello uniu-se à artista e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Lilian Maus, a você, Isabel Waquil, jornalista, e a outros colaboradores que o auxiliaram no projeto. Também apresentaremos e discutiremos o projeto com estudantes de artes visuais. Essas trocas são preciosas para todos nós.
